Quando ouves dizer “deus é amor”…

Execução em roda (tortura) de Jean Calas (1762)

Nunca falha. Com o devido tempo, qualquer religioso mais cedo ou mais tarde irá trazer ao de cima aquele “amor incondicional” segundo o “conceito divino” que as “sagradas escrituras” lhe inspiram.

A imagem que acompanha este breve artigo ilustraexecução na roda a 10 de março de 1762 do mercador Jean Calas, francês (protestante) acusado e condenado de forma injusta à morte por suspeita de ter matado um dos seus próprios filhos.

Sendo descendente de protestantes, Jean Calas educara os seus filhos na crença que também lhe havia sido imposta, mesmo considerando que na França de Louis 15 qualquer tipo de fé, crença ou descrença para além do catolicismo “oficial” do Estado, retirava qualquer tipo de esperança ou possibilidade de viver uma vida minimamente estável a qualquer cidadão que a tal ousasse. Não obstante a imposição oficial, os protestantes que conseguiam viver sem levantar muitas suspeitas, seriam, na melhor das hipóteses, ignorados pela sociedade.

Após a conversão do seu filho Louis ao catolicismo a convivência familiar tornar-se-ia menos fácil e com maior exposição pública, na medida em que a exigência social passaria a demandar uma conversão católica aos restantes membros da família.

A gota de água chegaria com o suicídio do outro filho, Marc-Antoine. Jean Calas fora acusado de fanatismo religioso apontado como autor da morte intencional do seu filho por receios deste também poder vir a converter-se ao catolicismo, acusação que Jean sempre refutou.

O caso chega até nós principalmente através dos relatos de Voltaire que, após ter sido contactado pela família, viu-se movido a iniciar uma campanha junto do rei na tentativa de exonerar Jean Calas de uma culpa injusta.

Veio a saber-se que Marc-Antoine contraíra dívidas no jogo e que por isso se vira impossibilitado de concluir os estudos universitários, o que terá levado o jovem a sentir vergonha e pressão social, acabando por encontrar no suicídio a forma de evitar o embaraço.

Voltaire, que na altura já era um ativista contra a intolerância religiosa, principalmente contra os excessos da igreja católica, conseguiu mover o rei a reverter a pena a título póstumo em 1765 e inspirou-se nestes acontecimentos para escrever o seu livro Tratado sobre a Tolerância, que, em janeiro de 2015, após os lamentáveis atentados terroristas contra o jornal Charlie Hebdo, voltou a tornar-se num best seller, 250 anos após a primeira edição.

Atualmente, ainda é possível ouvir muitos religiosos afirmarem categoricamente que “deus é amor”. Isso sempre nos leva a questionar: O que faria se não fosse?

1 comentário em “Quando ouves dizer “deus é amor”…”

Deixe um comentário